Desde os primórdios da história a humanidade, são criados mitos e criaturas fantásticas que povoam o folclore das mais diversas culturas. Com a globalização e estreitamento de laços entre os povos, as barreiras geográficas já não são mais empecilho, de forma que fantasmas, lobisomens e criaturas do tipo sejam conhecidas hoje mundialmente. Mais do que isso, como já não vivemos na idade das trevas, houve uma humanização de muitas dessas criaturas e o fenômeno não é recente: Sereias dificilmente são relacionadas às criaturas monstruosas do mito original, por exemplo, e testemunhamos ultimamente os vampiros tornando-se menos terríveis do que costumam ser. E a tendência não fica somente no ocidente, o oriente também o faz, como é o caso de Tokyo Ghoul!

Baseado no mangá de mesmo nome de 2005, Tokyo Ghoul é a versão live action da história – que também teve versão em anime. Nela, acompanhamos o jovem Kaneki Ken (Masataka Kubota) que vive em um mundo onde a humanidade convive com a ameaça de ghouls – criaturas (baseadas no folclore árabe) que necessitam exclusivamente de carne humana para se alimentar. Após sofrer um ataque, a vida do protagonista é salva por meio de um transplante, porém o órgão recebido era de uma das criaturas, o que o transforma em meio humano-meio ghoul: cabe ao herói agora ter de se adaptar a um novo mundo incluindo a ameaça humana que pretende exterminar os ghouls que se escondem na cidade de Tóquio.

Sendo um filme com a temática de horror, muito sangue e violência estão presentes, ainda que não tão explicitamente. Com duas horas de duração, a película tenta explicar o máximo de detalhes possíveis para o entendimento da história – e são muitos. A maior parte dos cenários é urbana com pouco ou nenhum atrativo, criando um clima melancólico adequado à história. Uma grata surpresa do roteiro é que, apesar de boa parte da trama mostrar sim a humanização das criaturas e que elas são mais do que monstros, o foco acaba sendo justamente a luta do protagonista para não perder a sua humanidade.

Claro, se as criticas sociais – explicitas ou não exploradas apesar de presentes – dominam o roteiro, temos algumas lutas físicas, já que as criaturas deste universo contam cada uma com órgãos predatórios especiais que utilizam em suas caçadas! E ainda que o elemento fantasioso e exagerado dos poderes sobre-humanos sejam utilizados por meio de computação gráfica durante as cenas de combate, é inegável – e lindo de se ver – as personagens praticando artes marciais muito bem coreografadas e bastante realistas.

Para os fãs mais puristas de produções japonesas, o áudio dublado pode ser um problema… Entretanto, a qualidade e o esforço do trabalho de dublagem são visíveis e algumas vezes as falas em português estão em perfeita sincronia labial com os atores. De forma alguma a produção deveria ser evitada somente pela falta do áudio original.

Dirigido por Kentaro Hagiwara, Tokyo Ghoul dá continuidade ao Festival de Ação Japonês, proporcionado a nós pela Sato Company e entrará em exibição aqui nos cinemas dia 15 de Setembro com exibições adicionais dias 19 e 21 (confira a programação completa aqui). Prestigiar a exibição vale muito a pena não só para quem já conhecia a obra, afinal, mais do que uma simples adaptação para outra mídia, o filme apresenta uma criatura folclórica milenar com uma nova roupagem. E mesmo se tratando de um mito advindo do medo e ignorância, conhecer pontos de vista diferentes é uma qualidade real e humana.

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Por: Ricardo Becker
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Ricardo Becker é formado em Tecnologia Eletrotécnica. Lê Monteiro Lobato, Julio Verne e Sherlock Holmes, mas também Tio Patinhas, Mortadelo & Salaminho; Coleciona (mais do que deveria) Lego e Transformers. Escuta Roxette e faz cosplay e arte usando as mais variadas técnicas e materiais do mesmo modo que acredita na diversidade cultural e ideológica!